Este blog descreve momentos da vida da banda de rock "Os Tubarões", de Viseu, Portugal entre 1963 e 1968. This blog describes rock band moments of life "Os Tubaroes", Viseu, Portugal between 1963 and 1968.
25 de Abril de 2017

Joaquim Guimarães dos Santos (Quim Guimarães)

(C.V. Musical, Viseu anos'60s)

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- Do Avô herdou uma guitarra portuguesa mas a sua inspiração e admiração vieram do Pai, visto que o via e ouvia horas sem par a dedilhar a sua viola, e pelos 10 anos já o acompanhava em harmónica de boca.

Este dueto, Pai e Filho, chegou a gravar melodias que aos domingos iam para o Ar na antena da Rádio Caramulo com um repertório baseado no folclore nacional. A fama alastrou pelo bairro com a vizinhança a sintonizar bem alto a Rádio Caramulo e as transmissões dos arranjos musicais do Senhor Abel e seu filho Quinzinho. Aos 12 anos, ensinado pelo Pai, aprendeu os primeiros acordes na viola mas o que verdadeiramente despertou o seu talento foi o filme “Rock Around the Clock” do Bill Haley and his Comets, que viu da Geral do nosso AVENIDA TEATRO na Avenida Emídio Navarro (sensívelmente onde hoje está o Restaurante Casablanca).

 


"Teria uns doze/treze anos qundo pedi ao meu pai para me ensinar a tocar viola. Ele disse-me: olha Quim, eu ensino-te os tons e tu praticas... vai ser difícil ao principio e tens que ter os dedos da mão esquerda calejados. Ensinou-me a colocar a mão esquerda e a posição do pulso no braço da viola para abranger as cordas todas, e deu-me instruções para colocar os dedos da mão direita nas cordas para tocar. O que ninguém sabe é que aprendi a pôr os dedos da mão direita na viola de uma maneira incorreta... assim o dedo que deveria ser na corda mi pu-lo na corda sol e troquei a posição. Na viola eléctrica tocava com palheta mas na viola acústica sempre toquei técnicamente incorreto... ainda hoje!!!!" (... QG)


 

 

Não mais largou a viola e em 1960 foi convidado a participar no acampamento da Mocidade Portuguesa actividade incluída no evento da inauguração do monumento aos Descobrimentos em Belém. Neste encontro da juventude da Mocidade Portuguesa de todos os Continentes, os serões musicais eram encontros geracionais que animavam e uniam os jovens portugueses vindos de todos os cantos do Mundo.

Em 1961 num Sarau dos Alunos da Escola Comercial e Industrial de Viseu (actual Escola Secundária Emídio Navarro) teve a primeira formação musical com Gualter, que cantava “You are my destiny” e “Diana” grandes êxitos de Paul Anka, com o Fausto que tocava acordeão e o Quim Guimarães que já solava êxitos dos Shadows como “Os Cavaleiros do Céu” e o “Apache”.

 

- Anunciados como o Conjunto “Os Petas” a sua actuação foi considerada um grande sucesso e o início de uma carreira musical destes três jovens músicos que durante alguns anos animaram várias festas em Viseu em vários grupos musicais.

 

    (Os Petas) com (e-d) Desconhecido, Fausto, Gualter, Quim Guimarães e Desconhecido.

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 01 00 FB 539021_10200184076183227_133086078_n b.jpA evolução da música ligeira atraía cada vez mais a juventude e apareciam duos como “The Kings", trios vocais a cantar tirolês, Paul Anka, Conchas e, no Liceu, o Beto Gonçalves a cantar Elvis Presley. O Quim Guimarães passou a ser o “Viola” de serviço acompanhando todos eles na sua viola acústica, até que um jovem colega com muito geito para a electrónica inventou um microfone para a viola criando assim a sua primeira viola eléctrica inaugurada num famoso Sarau do Liceu.

 

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Ao tempo Viseu tinha um grande Mestre da música ligeira, Mário Costa, conhecido e apreciado a nível nacional que além de uma prestigiada Escola Musical de Acordeãos, desde os anos 50’s dirigia a Orquestra Cine JAZZ a qual, além de animar as festas e bailes que se realizavam pela cidade e arredores, acompanhava as grandes vedetas da Canção Nacional que muitas vezes actuavam no nosso famoso Avenida Teatro, acima referido. A idade de alguns elementos do Cine Jazz e os ventos da nova onda musical levaram Mário Costa a formar o seu próprio conjunto convidando o Quim Guimarães, o Gualter e o Fausto a juntarem-se ao Carlinhos da Sé, voz e bateria e alguns elementos vindos da Orquestra Cine Jazz.

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 Conjunto de Mário Costa com (e-d): Gualter (contra-baixo), Quim Guimarães (viola), António Correia (violino), Fausto (acordeão) e Mário Costa ao piano.

 

Em Janeiro de 1962 o famoso baile de finalistas do Liceu de Viseu teve como principal atracção o Conjunto italiano Andrea Tosi alternando com o Conjunto de Mário Costa. Para o Quim Guimarães foi a sua noite de sonho musical pois além de muito andar a aprender com os ensaios do Mário Costa pôde assistir ao vivo a uma actuação de outros músicos de grande craveira com quem também muito aprendeu. Motivos particulares levaram Mário Costa a sair da cidade. Camilo Costa, seu filho, ficou à frente da Escola de Acordeãos e o Conjunto Mário Costa deu origem a dois novos conjuntos em Viseu: Os Condes liderados por Camilo Costa e os Diamantes formados por Quim Guimarães (viola), Gualter (voz e contra-baixo), Fausto (piano e acordeão) e o Carlinhos da Sé (voz e bateria).

01 04 Diamantes copy.jpgOs Diamantes com (e-d): Norton, Fausto, Carlinhos da Sé e Gualter (Clube de Viseu, 1965).

 

Entretanto os Pais do Quim Guimarães deram-lhe um valioso presente: uma viola eléctrica.

Foi o momento da grande viragem da sua vida musical sentindo em definitivo que os seus verdadeiros companheiros de vida eram a música e a sua nova viola. Como perfeccionista que era, sempre se preocupou com o rigor da interpretação e a temática do som, uma disciplina não muito cuidada na região. Com a sua nova viola eléctrica entregou-se aos seus ensaios solitários, diários e de horas a fio. Objectivo: a perfeição !

 


"Nessa altura eu ensaiava muito, sózinho em casa. Por vezes passava horas a tocar viola e a praticar escalas. O Assunção, grande amigo meu, emprestou-me um gravador de fita com músicas novas, algumas do grupo francês "Les Chats Sauvages". Eles e outros grupos da altura inspiraram-me a adaptar "O Voo do Moscardo". Passei horas e dias a ensaiar sem parar, fiz muitos calos nas mãos, e finalmente usei o dedo mindinho que me ajudou muito na execução do Voo do Moscardo. A partir daí era capaz de executar qualquer música... não havia obstáculos para nada!!!”(... Q.G.)


  

E a sua interpretação do “Voo do moscardo” começou a ser muito famosa e apreciada pois era a mostra do seu virtuosismo e um momento alto nas suas actuações. Só a interpretava quando sentia motivação e ambiente para tal.

Os Diamantes lideraram as festas da cidade de Viseu e arredores entre 1962 e 1964 actuando por todo o Distrito de Viseu com uma playlist de músicas de baile composta por música tradicional portuguesa, brasileira e sul-americana, italiana e francesa. "Os Diamantes" evoluiram muito nesses dois anos e já se preocupavam com a sua apresentação cuidando a roupa com que actuavam e também a sua postura em palco.


“Tocámos muito, sempre juntos e aprendemos muito também, mas a nova música estava a chegar de Inglaterra... os guedelhudos!!! “Os Beatles!!!!! Twist and Shout”. Essa era a música que eu queria tocar. E um dia ouvi tocar um grupo novo de Viseu... “Os Tubarões”, e eles tocaram o Twist and Shout!!!!!!!!!!! Claro nessa altura “Os Tubarões” estavam a começar, mas notei logo muito potencial...” (... Q.G.)


 

Em meados de 1965, perante o desafio do Grande Concurso IÉ-IÉ, o Quim Guimarães foi convidado a integrar “Os Tubarões” como viola solo, missão que aceitou com alegria pois além de músicas dos consagrados Beatles e Rolling Stones "Os Tubarões" tocavam muitos êxitos dos conjuntos do momento destacando-se a música dos "The Animals", conjunto de Eric Burdon e Alan Price que se aventuravam em novos desafios instrumentais assentes nos blues e folk.

 


“... ... Começámos a ensaiar no Cine Rossio preparando a nossa participação no IÉ-IÉ. Nos ensaios, sempre que alguma música ou som não fosse do agrado do Quim, ele parava de tocar, saía do Palco e ia para a assistência ouvir-nos, esmiuçava todos os instrumentos e sons e obrigava-nos a repetir até perceber e levar-nos a corrigir o pormenor que não lhe soava bem. Com ele começámos a interpretar músicas de uma craveira musical mais exigente quer na vertente instrumental quer na vertente de vozes.” (...porViseu’ 60s.)


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Os Tubarões nos ensaios no Cine Rossio para Concurso IÉ-IÉ: Foto da esq.: 1ª Eliminatória (Out.1965); Foto dir.: 2: Semi-Final (Jan.1966). Formação: Voz: José Merino; Teclas: Carlos A. Loureiro; Viola Solo: Quim Guimarães; Viola Ritmo Victor Barros; Viola Baixo: Luis Dutra; Bateria: Eduardo Pinto.  


 

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A estreia de “Os Tubarões” com o Quim Guimarães ocorreu no “Jantar à Americana” no Grande Hotel Lisboa nas Termas de S. Pedro do Sul no final do mês de Setembro de 1965. 

 

 

 

Os Tubarões no Grande Hotel Lisboa- (e-d) Luis Dutra (Baixo), Victor Barros (Ritmo) e Quim Gui,marães (Solo) e José Merino (Vocalista).

 

 

A 9 de Outubro Os Tubarões apresentaram-se na 7ª Eliminatória do Grande Concurso IÉ-IÉ com “Os Sheiks” (Lisboa), “Os Galãs” (Porto), “Os Kzares” (Aveiro) e “Os Jovens do Ritmo” (Seixal). Juntamente com “Os Sheiks”, “Os Tubarões” foram apurados para a fase seguinte, as semi-finais.

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Concurso IÉ-IÉ: Os Tubarões no Palco do Teatro Monumental, Lisboa

 

 

- Entretanto em Portugal corria a moda dos Festivais IÉ-IÉ e também em Viseu se realizou uma tarde IÉ-IÉ numa matinée de domingo no Cine-Rossio com a participação de “Os Corsários” um conjunto também de Viseu e “Os Tubarões”, que as imagens documentam.

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Festival IÉ-IÉ em Viseu (1965): (e-d): Os Corsários (José Figueiredo, Carlos Assunção, Norton e Fernando Dias) e Os Tubarões (Luis Dutra, Quim Guimarães, José Merino, Eduardo Pinto e Carlos Lureiro.

 

- Em Dezembro os Tubarões foram notificados da sua passagem às meias-finais do IÉ-IÉ marcada para o dia 15 de Janeiro de 1966.


“Concurso IÉ-IÉ: Semi-final.

… Fomos chamados para a 2ª semi-final que se realizou a 15 de Janeiro no Teatro Monumental com os seguintes conjuntos: os Saints (futuros Claves), que vieram a ganhar na final do Concurso, os Jets, os Cometas Negros de Castelo Branco, os Kímicos, e os Boys de Coimbra.

... Entrámos em palco vestidos com um bonito fato cinzento de trespasse feito na Alfaiataria Freitas em S. Pedro do Sul e começámos com o Satisfaction, um clássico com aceitação muito generalizada e a adesão foi muito boa. Seguiram-se os primeiros acordes do baixo do We gotta get out o this place, último êxito dos Animals, grupo que tinha uma configuração instrumental muito semelhante à nossa para além do timbre do Zé Merino lembrar o timbre do Eric Burdon. Ainda com os aplausos no ar o Quim arrancou com os inconfundíveis primeiros acordes do “I Feel Fine” e terminámos com uma fortíssima interpretação do Zé Merino no “It’s my life” dos Animals, uma música do final do ano de 1965 especialmente escrita para a voz do Eric Burdon, com uma construção musical forte iniciada pela viola baixo que sincroniza com a viola solo na segunda frase musical, e assim se mantêm durante partes da música, sempre em crescendo, e sobre a qual evolui um timbre forte de voz que nalgumas fases incita ao diálogo com os coros. Sem dúvida uma boa música que nós tocávamos muito bem. E a plateia foi ao rubro. Foi uma tarde memorável. Não conseguíamos sair do palco pois os aplausos não paravam. O público pedia mais uma música e não se cansava de aplaudir. Nós agradecíamos no Palco com o Zé a dizer estar rebentado da garganta. Então o Quim Guimarães virou-se para o Júri algures no Balcão à nossa direita, levantou o indicador direito e interrogou: “só mais uma?” e foi-nos dada autorização. Interpretámos o “voo do moscardo”, um instrumental clássico que o Quim tinha adaptado à viola eléctrica, e em que demonstrava todo o seu virtuosismo. Brilhou com todo o Monumental em pé quando colocou a viola no ombro direito e solava com a viola nas costas. Uma monumental tarde no Monumental! Durante esta música parti uma das baquetas que me feriu um dos dedos jorrando sangue pela bateria. Tocámos até ao final com o público em pé. Foi uma ovação!” (...porViseu’ 60s.)


 

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Concurso IÉ-IÉ: Reportagem Jornal O Século de 16/01/1966 e anúncio dos Finalistas em Abril de 1966.

 


“Gostei imenso de tocar com a malta dos Tubarões... juntos vimos um progresso enorme em execução e adquirimos até fama nacional. Nunca me esquecerei da semi-final do concurso IÉ-IÉ no Teatro Monumental em Lisboa em Janeiro de 1966. Finalmente estávamos a fazer frente aos melhores conjuntos Portugueses da altura... foi um dos melhores dias da minha vida!!!! A gritaria era tanta que deixei de ouvir o que estava a tocar. Foi tudo por instinto... nessa altura não haviam sistemas de feedback. “Os Tubaroes” foram um sucesso enorme!

Foi também um dia muito triste da minha vida ... na audiência estava a minha namorada que me criticou muito porque eu só queria tocar a viola e ignorava os estudos. Foi um balde de água fria.

Assim acabou a minha jornada musical.” (... Q.G.)


Após esta semi-final "Os Tubarões" regressaram a Viseu, animaram o Carnaval do Clube de Viseu tendo sido a última actuação musical do Quim Guimarães que, face às pressões decidiu ir viver para Lisboa terminando assim uma carreira musical muito promissora e empobrecendo o panorama musical da nossa cidade. 

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Os Tubarões no Carnaval de 1966 no Clube de Viseu, última actuação pública do Quim Guimarães.

 

 O Quim Guimarães saiu de Viseu para Lisboa em Março de 1966, em 1967 foi chamado a cumprir o serviço militar obrigatório. Foi mobilizado para a Guiné em 1968 após o que se reuniu à Família em Moçambique. Iniciou a sua vida profissional e familiar, após 1974 radicou-se na Africa do Sul, tirou um curso de Marketing e começou a trabalhar na Coca Cola onde chegou a Director Geral de Vendas. De seguida agarrou uma oportunidade na Coca Cola Americana onde se afirmou atingindo o lugar de Director de Supply Chain na Divisao Corporativa de Marketing. Após uma carreira internacional e muitas viagens o Quim Guimarães, cidadão americano, goza hoje a sua reforma dedicando-se aos 5 filhos, amigos e à fotografia nunca perdendo de vista o piano e a sua inseparável viola. A Viseu tem vindo a espaços para estar com os Amigos que por cá deixou e ainda se lembram, com muitas saudades, do seu “voo do moscardo” do qual não há nenhuma gravação.

 

Porep.

Fontes: Quim Guimarães, porViseu’60s, “Os Tubarões”. (1) - Foto gentilmente cedida por Aires de Matos 

publicado por os tubaroes, Viseu às 16:08
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17 de Dezembro de 2013

 A estreia oficial do conjunto ocorreu a 26 de Abril de 1964 numa Matinée no Clube de Viseu. Foi a nossa casa de ensaios até 1966. Lá guardávamos os nossos instrumentos, ensaiávamos e gravámos três temas inéditos no Salão Nobre, em Outubro de 1966 (Gravador Grundig, live on tape, som ambiente, sem pós produção).


Aproveitando o lançamento do livro "Portugal Eléctrico-Contracultura Rock 1955-1982" de Edgar Raposo e Luis Futre que inclui um disco com os nossos 3 temas gravados no Clube, decidimos entregar os nossos arquivos relacionados com o CLube de Viseu àquela Instituição num Acto Público que ocorreu dia 13/12 pelas 18H30. 


O Dr. Francisco Mendes da Silva, Presidente da Direcção do CLube de Viseu presidiu à sessão com o seu Colega de Direcção Dr. Francisco Capele, estando na mesa quatro elementos do Conjunto (e-d) António N.Fernandes (V.solo), Carlos A.Loureiro (Teclas) Victor Barros (V.ritmo) e Eduardo Pinto (Baterista). 



O Palco do Salão Nobre do Clube de Viseu foi decorado com as Casacas originais do Conjunto pertencentes a (e-d) José Merino (Vocalista) e a Carlos A.Loureiro (Teclas), a maquete original que serviu para a fotocomposição da capa do disco, e a viola Vox Shadow de Victor Barros (uma relíquia). A sessão teve ainda, em projecção contínua, o arquivo fotográfico da vida e obra do conjunto com fundo musical dos 7 temas originais gravados pelos Tubarões.


A arquivo entregue ao Clube de Viseu é composto por 9 fotos, todas do Clube de Viseu dos anos de 1963 a 1967, um exemplar do livro "porViseu'60s - retratos de Viseu e da carreira musical de Os Tubarões" e um exemplar do livro "Portugal Eléctrico-Contracultura Rock 1955-1982". 


(e-d) António N.Fernandes (V.solo), Carlos A. Loureiro (Teclas), Eduardo Pinto (Baterista) e Victor Barros (V.ritmo).
publicado por os tubaroes, Viseu às 13:52
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03 de Dezembro de 2011

TEATROS e CINEMAS de VISEU

 

No princípio do Século XX Viseu chegou a ter cinco casas de Espectáculos: Teatro da Rua Escura, Teatro Viriato, Teatro Paraíso, Avenida-Teatro e o Cine-Rossio. Em 1959 já só estavam activos o Avenida-Teatro, o Teatro Viriato e o Cine-Rossio.

  

 

 O TEATRO VIRIATO 

(do livro porViseu60s - Informações em porviseu@sapo.pt )

 

 

 

 (Fotos cedidas pela Foto Germano, Rua Formosa, Viseu)

  

Nos anos 60 o Teatro Viriato, inaugurado em 1883 com o nome de Theatro Boa União, já tinha encerrado as suas portas e dava lugar a um Armazém de Mercearias.

 

 

 (Foto inédita do interior do Teatro Viriato enquanto Armazem de Mercearias)

 

 

 

Felizmente voltou a ser reconstruído respeitando a traça original, e reiniciando as suas actividades em 1998.

 

 

 
publicado por os tubaroes, Viseu às 20:04
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23 de Novembro de 2010

 

(Aguarelas de Rolando Oliveira)

 

“Os estudos ocupavam-nos entre as 09H00 e as 17H00, com a Mocidade Portuguesa às 4ªs de tarde e Sábados de manhã. A matinée do cinema ao domingo era uma festa uma a duas vezes por mês, intercalada com o futebol local, geralmente fraco, ou hóquei regional, geralmente mais animado. A tv dava os primeiros passos lá por casa.

As festas de anos começaram a animar-se com o gira discos, os discos franceses, italianos e o Cliff Richard. Mas quando entrava o "derniers baisers" do Dick Rivers, a luta pelo par certo era total. The Shadows impunham-se e na tv começaram as notícias dos «Guedelhudos». E as músicas destes tinham muita força e muita música. E das caves de Liverpool vieram os clubes de garagem. E nestes apareceram as primeiras violas. E destas as primeiras letras, os primeiros cantos e os primeiros coros. E destes os primeiros grupos.

Nascemos assim. Saudavelmente. Com energia, interesse cultural, e amantes da música. Para a Vida.“

Eduardo Pinto

Os Tubarões, Viseu 1963-1968.

 

(depoimento feito em 2010-09-26 para

"IÉ-IÉ - Caloiros da Canção" 

 

publicado por os tubaroes, Viseu às 17:42
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13 de Junho de 2010

O Café Rossio, na Rua Formosa em 1966. Foto Germano.

 

O Café Rossio.

 

O Café Rossio era uma instituição na cidade de Viseu por onde passava toda a gente.

Lá tudo se sabia, da cidade do país ou da região. Do poder ou da oposição.

Para nós, estudantes, subir ao primeiro andar era crescer, ser quase adulto, poder iniciar o fumar, o bilhar, e assistir às apostas dos matulões, meio-heróis/vilões, que falavam alto, muito fanfarrões.

Recordamos boas memórias do Café Rossio que nos inspiraram nestas palavras:

 

 

 

Café Rossio:

 

O Lugar !

O Café, a conversa, o estar,

os do Contra, os do Poder,

os das tricas, e os do morder,

os do bem e do mal dizer,

e os do comer ...

e os do fino, e os da televisão.

 

Tudo era redondo naquele r/c,

as mesas até aos pés,

as travessas dos cafés,

as cadeiras e o corrimão,

até a esquina e o Balcão.

 

Por aquele chão de madeira

passava a cidade inteira.

O Doutor e a menina,

o "Formidável" e a Flausina,

o Liceu e a Escola,

a Política e a Bola.

 

Vazio, vazio,

só nas noites de verão.

Quando o calor apertava,

a cidade passeava

horas a fio,

num louco rodopio,

nesse grande salão

que era o Rossio.

Cada um na sua mão,

quase todos num sentido,

e poucos na contra-mão.

 

E o Bilhar !!!

Quem não se lembra da atmosfera daquele 1º andar ?

Pelas janelas abertas, de par em par,

saía fumo, um palavrão, e entrava o ar.

 

Muitos tacos, muito giz,

os candeeiros mesmo em cima do nariz

do entendido que ensinava o aprendiz,

só concentrado nas palavras do seu juiz.

 

Na mesa ao lado já com as bolas a rodar,

o fumo, os nervos, o silêncio, e o rezar,

para esta jogada vir a confirmar,

aquela aposta que estava mesmo a ganhar,

não fora a última tacada espirrar.

 

Ah,

que aventura era lá entrar !!!

O estado adulto antes de lá chegar !

Valeu a pena por lá passar !

 

 

por eduardo pinto

"Os Tubarões"

 

 

O nosso bem haja a "Foto Germano"

publicado por os tubaroes, Viseu às 20:47
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05 de Junho de 2010

Salão de Chá dos Bombeiros Voluntários

(Feira de S. Mateus, Setembro de 1960)

 

Nos terrenos da Feira de S. Mateus foi construído nos anos 30’s um bonito edifício de arquitectura modernista, cujas traseiras davam para a Central Eléctrica localizada na rua da Ponte de Pau. Tratava-se do Salão de Chá dos Bombeiros Voluntários de Viseu (BVV), seguramente o maior e o mais bonito edifício, o de maior destaque e prestígio no recinto da Feira de S. Mateus, com um piso único elevado ao estilo de uma “mezzanine”. Tratava-se de um amplo Salão com duas frentes rasgadas para o recinto da Feira de S. Mateus e que durante o período da feira, todo o mês de Setembro até às vésperas da data de início do ano escolar a 6 de Outubro(+-), era utilizado pelos Bombeiros Voluntários de Viseu para a prestação de serviços de restauração servindo o montante apurado como reforço de fundos tão necessários ao suporte das suas actividades totalmente voluntárias.

 

Os Bombeiros Voluntários de Viseu sempre tiveram muito valor, um enorme prestígio na cidade e eram um foco de entusiasmo e adesão de muita juventude que, voluntariamente e com grande orgulho, aderia a tão nobre e justa causa de ajuda à comunidade. Além das suas actividades voluntárias de socorro às populações os BVV tiveram no passado uma grande intervenção cultural nomeadamente através de um Grupo de Teatro Amador que levou à cena no Teatro Viriato várias peças algumas delas acarinhadas pela nossa conterrânea Mirita Casimiro.

 

Pois durante a Feira de S. Mateus, nos anos 60’s, o Salão de Chá dos Bombeiros Voluntários era o local mais “chique” e mais cobiçado da Feira. O espaço tinha atributos únicos como os disputadíssimos “toilletes” (uma fragilidade no “adn” da Feira que se mantém), as mesas viradas à rua que permitiam observar e comentar os passeantes e visitantes, assistir aos espectáculos, gincanas e outras iniciativas como se se estivesse num camarote de um teatro. Havia serviços de chá com torradas ou farturas, o branco a copo, ou o famosíssimo Caldo Verde com a broa fresca de Vildemoinhos. Além destes serviços directos este Pavilhão também era o mais seguro refúgio sempre que a chuva pregava as suas partidas, o que não era tão raro quanto isso.

Todo o serviço no Salão de chá era feito pelos bombeiros voluntários nos seus tempos livres, com o traje azul de bombeiro e os seus reluzentes botões de latão amarelo. O Salão, à esquerda de quem entrava, tinha um enorme e altíssimo balcão de serviço, com vista e controlo de todo o espaço. À direita deste, no canto frontal à entrada, o estrado para a Orquestra. À esquerda uma entrada que dava acesso aos famosos “toilletes” e ainda a uma Copa mais recatada e só para “Maiores” onde se podia beber um copo (branco, tinto, cerveja, Bussaco ou pirolito), acompanhado por um petisco (pasteis de bacalhau, panados, enguias, empadas ou rissóis, …).

 

Nos dias principais da Feira havia uma cerrada disputa pelas mesas viradas à rua e não era raro assistir-se à marcação presencial com horas de antecipação.

 

E aos Sábados?

Aos Sábados havia “Chá Dançante” no Salão de Chá dos Bombeiros Voluntários de Viseu (tempos houve que eram às 4ªs e sábados). Eram quatro bailes com grande procura, quase sempre esgotados que punham a cidade numa grande agitação. Os cabeleireiros entupiam, os sapateiros engraxavam, os perfumes esgotavam, e as mais jovens debutavam numa grande comoção. Ir ao Baile dos Bombeiros era uma grande emoção!!!

 Ao princípio os bailes eram animados pelas orquestras locais como a Orquestra do Cine Jazz, a orquestra do Mário Costa, Os Diamantes, entre outras. Na época de maior sucesso já eram as principais Orquestras Nacionais como a de Shegundo Galarza, Toni Hernandez, Costa Pinto, e até o Conjunto Italiano Manino Marini, que fez várias épocas em Portugal com os grandes sucessos românticos e únicos da música italiana.

 

E hoje, Viseu, o que é feito de tamanha animação?

 

 

Os chás dançantes dos Bombeiros Voluntários foram, para mim, uma das fontes de inspiração para o que é hoje o conceito de “Os Melhores Anos”.

 

Eduardo Pinto

www.myspace.com/tubaroes

 

 

(O nosso Bem Haja: F.Matos, B.V.V. e "Foto Germano").

 

 Com a devida vénia ao "Made in Viseu", onde este original foi publicado.

 

 

 

publicado por os tubaroes, Viseu às 18:05
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23 de Março de 2010

Vivíamos no limiar dos anos 60. O interesse musical da juventude crescia acompanhando a vulgarização dos discos de vinil e o aparecimento dos gira-discos portáteis. Na música ligeira moderna estávamos na época madura do Rock n’ Roll, na moda do Hula Hoop, e no início do grande êxito “The Twist” de Chubby Checker.

E a animação repercutia-se em todos os extractos da Sociedade. Vieram os Bailes, alguns com datas fixas como a Passagem do Ano, o Carnaval, as Festas dos Santos Populares, e os Bailes dos Bombeiros Voluntários durante a Feira de S. Mateus, e outros com motivos diversos como os Bailes de Finalistas, as Festas de Aniversário e mais tarde os Bailes de Garagem.

 

No Clube de Viseu era êxito garantido o Baile do Fim do Ano e a Matinée do dia 1 de Janeiro, para os mais Jovens. No Carnaval ganhava tradição o Baile de Máscaras (sábado magro), o Baile de Gala (sábado gordo) e o Baile de Carnaval, na terça-feira, além de uma ou duas Matinées para os mais Jovens.

 

E terá sido inspirado por estas que, em 1961/62, um grupo de jovens liderados por E.Faro, T.Madeira, J.Peixoto e Q.Cavaleiro, todos na casa dos 17/18 anos, conseguiu o apoio da Direcção do Clube para a realização de matinées dançantes, de 15 em 15 dias, em que a música de dança era a dos êxitos dos discos de vinil que cada grupo levava para serem tocados no gira-discos da casa. O preço de entrada era de 2$50 e mais tarde 5$00 e as receitas serviam para a compra de discos, tendo mesmo em 1962 sido adquirido um magnífico gira-discos com duas colunas acopladas. Nestas matinées cada grupo tentava “mostrar” o que melhor sabia dançar em conjunto, do Slop ao Twist, com os passes estudados e ensaiados durante a semana para serem publicamente demonstrados na matinée seguinte. Célebre ficou a música "BABY ELEPHANT WALK" do filme HATARI (1962) com John Wayne, um dos maiores Artistas do Cinema de então, música que foi objecto de uma coreografia própria que originou muitos ensaios e que era dançada em conjunto com passes cuidadosamente sincronizados. Esta coreografia manteve-se no top durante várias matinées, sendo objecto de vários encore durante a mesma tarde, com todos os dançarinos alinhados em longas filas pelo salão.

 

Na época 1963/64 a gestão das matinées passou para o grupo liderado por O.Martins, F.Matos, A.Palhoto e J.Barreiros. Foi na matinée de 26 de Abril de 1964 que, excepcionalmente e com grande excitação, se estrearam "OS TUBARÕES", com instrumentos e aparelhagens emprestados, em que até um Rádio serviu de amplificador da viola ritmo do Victor. Foi uma tarde de sucesso com uma receita espectacular que até permitiu o arranjo do gira-discos, que já apresentava sinais de algum cansaço.

 

Por Eduardo Pinto, com o apoio de Fernando Matos e de Foto Germano

publicado por os tubaroes, Viseu às 21:13
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01 de Março de 2010

    Um dos maiores êxitos do cinema estreou em 1961. Trata-se de uma obra ímpar , "WEST SIDE STORY" , um filme que marcou toda a juventude dessa época de ouro e de referência chamada "os 60s.". Inovou, fez moda, lançou hábitos e comportamentos que se reflectiram no dia a dia dos jovens em todo o Mundo.
O enredo do filme, o formato, a qualidade musical e o casting eram excepcionais como o comprovam os inúmeros prémios obtidos, nomeadamente 10 Óscares e mais de 15 outros prémios. Com um formato de opereta musical, abordando de forma inovadora o tema da emigração e integração dos jovens Porto Riquenhos em Nova York, e uma banda sonora assinada pelo génio de "LEONARD BERNSTEIN" Maestro, Compositor e Educador, ao tempo de todos conhecido pela televisão com a transmissão dos seus célebres Concertos para Jovens com a Filarmónica de Nova York, onde com uma excitação e entusiasmo únicos explicava os passos e o ABC da música, de toda a música, de qualquer tipo de música.

 
O filme, considerado um "Romeu e Julieta" moderno, retrata a luta pelo controlo do território (ruas) entre dois grupos de jovens rivais -"gangs", um de Nova York, os Jets, e outro de Porto Riquenhos, os Sharks. Durante um baile um dos líderes dos Jets (Tony) cruza-se com a irmã (Maria) do líder dos Shark (Bernardo) e nasce uma paixão impossível e proibida entre “gangs” rivais.
Do elenco fazem parte nomes como Natalie Wood, no papel de Maria, Richard Beymer, o Tony, Russ Tamblyn, como Riff, Rita Moreno como Anita e George Chakiris, como Bernardo. Eram os principais actores de um enorme grupo que dançava, representava e cantava obras imortais como Maria, Tonight, I Feel Pretty, América e tantos outras, grandes músicas que fizeram sucesso e perduram até aos dias de hoje.
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Um desporto muito popular no início dos anos 60 era o Hoquei em Patins. Portugal liderava nos campeonatos da Europa e Mundial e os relatos transmitidos pela Emissora Nacional prendiam todos os portugueses aos aparelhos de rádio. Clubes locais disputavam campeonatos muito emotivos com rivalidades regionais muito saudáveis. E o hóquei em patins era um desporto popular entre os jovens. Em Viseu tínhamos o campo do Fontelo e o campo do Parque da Cidade. E a prática deste desporto também era fomentada nos estabelecimentos de ensino (Liceu e Escola Comercial), facultando tempo e alguns meios para tal.
Nos anos 61 a 63 o nosso grupo começou a consolidar-se no hóquei em patins que praticávamos no Parque da Cidade. Terá sido em meados de 61 que o nosso amigo Júlio, mais velho, forte, muito boneicheirão e irrequieto, Guarda-Redes e Treinador de Hoquei, nos motivou e mobilizou para a criação do Hoquei Clube de Viseu. E lá andámos a formar o Clube, a criar os meios e a formar equipa para entrarmos no campeonato. E o Clube fez-se.
…/…
Foi a 23 de Abril de 1963 que o filme West Side Story estreou em Portugal. E terá sido num dos primeiros fins de semana de Junho de 1963 que o filme chegou ao Cine-Rossio de Viseu. Lembramo-nos bem do muito que conversámos, discutimos e fantasiámos a propósito do filme, de N.I., dos personagens, das músicas, danças e gangs.
Em Viseu os Cafés eram os lugares priveligiados de encontro e convívio dos jovens com afinidades comuns. Assim havia o Café Rossio (estudantes e bilhares), o Café Bijou (futebol), o Café das Beiras (estudantes da Escola Comercial), o Monte Branco (estudantes do Liceu), etc.
Porventura inspirados no West Side Story, alguns destes convívios deram origem a grupos com interesses específicos comuns e que tinham nomes próprios. Lembramos o grupo “Roça o tojo” do Café Rossio, com interesse nos bilhares e futebol, o grupo Arranha Twist Clube, com a alcunha de “Os Xibos” por grande parte dos seus membros usarem pêra, sediado no Arranha Céus onde se reuniam e ensaiavam danças como o Twist e o Slop que exibiam nas matinées do Clube de Viseu, e o grupo “Só+2”, sediado na Cave da casa do Victor no Maçorim, com organização de festas, bailes e ensaios de danças, e convívio em ambiente de “garagem”. Este nosso grupo tinha regras próprias, quotas semanais, lanches e bailes às 4ªs e Sábados ao som dos discos de vinyl tocados num fabuloso gira-discos portátil Teppaz-Óscar. A admissão de novos elementos era preferencialmente aos pares escrutinada por todos os membros. E um dos membros recentes do grupo foi o Tó Fernandes, vindo de Moçambique, bom ginasta, tocava viola e tinha um repertório engraçado. E daqui nasceu a ideia de formar um conjunto, à imagem de Cliff Richard e The Shadows, no top de então. Após a peripécia da escolha de quem tocava qual instrumento veio a atribuição de um nome. E imperou a opinião do nosso vocalista José Merino, que nunca escondeu a admiração que tinha pelo George Chakiris, o Bernardo dos Sharks do West Side Story, impondo o nome daquele grupo. Nasceu assim no último trimestre de 1963 o conjunto "OS TUBARÕES" com António Nogueira Fernandes (fundador e o único que sabia tocar viola e ficou o solista), José Merino (vocalista), Victor Barros (viola ritmo), Luis Dutra (viola baixo) e Eduardo Pinto (baterista).


http://www.myspace.com/tubaroes 

os.tubaroes.viseu@gmail.com
Eduardo Pinto, 2010-02-28
 

publicado por os tubaroes, Viseu às 01:12
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23 de Julho de 2009

A semi-final do Concurso Yé-Yé tinha sido extenuante. Correra muito bem e o apoio da claque fora estrondoso. Nem nós o imaginávamos. Das quatro músicas a interpretação do “It’s My Life (The Animals)” fez o delírio da assistência do Teatro Monumental. A tal ponto que o Júri foi obrigado a aceitar um “encore”. Tocámos o “voo do moscardo” numa interpretação em que o Quim Guimarães demonstrava todo o seu virtuosismo com a guitarra poisada nos ombros. Um festival de aplausos intermináveis. Até os membros do Júri aplaudiram! Mas Concurso é concurso, e esta meia-final de 10 de Janeiro de 1966 já incluía conjuntos com nome como The Saints (Os Claves), os Jets, os Kímicos, The Boys, … que traziam boas pontuações das suas primeiras participações e aura de favoritos.

 

Terminada a eliminatória seguimos do Monumental para a Quinta do Tio V. ali para os lados de Sintra onde uma assistência de elite ligada aos bacalhoeiros e outras indústrias aguardava pela nossa actuação. Seriam altas horas quando finalmente conseguimos ir à cama. Domingo foi dia de regresso a Viseu, meios a dormir meios a sonhar com o eco dos aplausos e a possível ida à final. E demorou muito mais do que o normal a publicação da renhida classificação da semi-final com a atribuição de 47 pontos para The Saints, 34,5 para Os Jets, 33,5 para Os Tubarões. Sem dúvida uma boa classificação e a única sessão em que três bandas ultrapassaram os 30 pontos. Restava-nos aguardar pela continuação das eliminatórias e respectivas pontuações.
Só em meados do mês de Março fomos informados dos conjuntos apurados para a final: 6 do Continente em que “Os Tubarões” eram o único conjunto da província, e dois do Ultramar, um de Angola e outro de Moçambique.
Em Viseu a expectativa e o carinho para com o conjunto eram enormes. Todos queriam saber novidades: Os colegas, os amigos e conhecidos, os Professores e todas as entidades da cidade. Vivíamos uma saudável atmosfera junto de todos os conterrâneos. E todos viviam connosco a nossa faceta artística e a comitiva que nos acompanhava nas nossas actuações aos fins de semana aumentava de dia para dia. O snack-bar Alvorada era o nosso escritório oficial e o Sr. Correia, a mulher e sobrinhas, tomavam conta dos inúmeros contactos telefónicos para as festas e contratos.
No início de Abril, dias antes da partida para a final, somos informados de que o Sr.  Governador Civil de Viseu, Engº Engrácia Carrilho, gostaria de nos receber numa audiência oficial no Salão Nobre do Governo Civil. Ficámos admirados por tamanha honra. Chegada a hora lá fomos todos devidamente vestidos com os fatos do conjunto, liderados pelo Sr. António Xavier de Sá Loureiro, pai do Carlos Alberto e nosso “Empresário”. Nunca entráramos naquele edifício na Av. 28 de Maio, hoje Alberto Sampaio. Aguardámos a audiência com o Sr. Engº Engrácia Carrilho. Era uma figura ímpar em Viseu. Muito alto, sempre impecavelmente vestido de fato estilo inglês, casaco sempre abotoado, muito educado e muito simpático para todos com quem se cruzava. Uma pessoa distinta!
Para nós o gigantesco Salão que parecia vazio ficou completamente cheio quando o Engº Carrilho entrou. Iniciada a cerimónia ouvimos em palavras simples, um pouco da história de Viseu, o seu passado, as suas gentes e a importância da cidade no contexto nacional e ibérico. As vias romanas que cruzaram a cidade, a Sé, as Muralhas e todo o passado histórico do qual existem tantos vestígios, os Reis e personalidades ligadas à cidade como D. Afonso Henriques, D. Duarte, Vasco Fernandes (Grão Vasco), João de Barros, Hilário, Emídio Navarro e seguramente muitos outros que já não recordamos. Após tal verdadeira aula de história viva da cidade o Engº Engrácia Carrilho estimulou a nossa presença na finalíssima do Yé-Yé enaltecendo a proeza de termos ultrapassado com tanto mérito as eliminatórias que nos permitiam chegar à final. As palavras de incentivo, de enaltecimento das virtudes das gentes da nossa região, da importância da nossa presença enquanto Viseenses no Monumental, caíram fundo em todos nós, e ainda mais pesaram quando fomos oficialmente nomeados “Embaixadores de Viseu no Yé-Yé”, mandatados para distribuirmos a todos os grupos presentes na final documentação e lembranças da região de Viseu.
Saímos todos muito sérios e muito orgulhosos pela distinção e pelo importante papel que nos fora atribuído naquele acto no Governo Civil de Viseu.
Ainda hoje, 40 anos depois, várias vezes recordamos entre nós este episódio e o quanto nos marcou no amor a Viseu. Todos passámos a ver Viseu com outros e melhores olhos graças à inteligência de uma pessoa que, embora num lugar de grande prestígio, tomou a iniciativa de nos chamar, valorizar o nosso sucesso e transmitir com simplicidade e encanto a importância de se amar Viseu.
 Obrigado Engº Engrácia Carrilho. Nunca o esqueceremos.
Os Tubarões
www.myspace.com/tubaroes
os.tubaroes.viseu@gmail.com
publicado por os tubaroes, Viseu às 20:52
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: Saudades
música: Old Lady
Os Tubarões em livro: porViseu'60s.
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