Este blog descreve momentos da vida da banda de rock "Os Tubarões", de Viseu, Portugal entre 1963 e 1968. This blog describes rock band moments of life "Os Tubaroes", Viseu, Portugal between 1963 and 1968.
23 de Julho de 2009

A semi-final do Concurso Yé-Yé tinha sido extenuante. Correra muito bem e o apoio da claque fora estrondoso. Nem nós o imaginávamos. Das quatro músicas a interpretação do “It’s My Life (The Animals)” fez o delírio da assistência do Teatro Monumental. A tal ponto que o Júri foi obrigado a aceitar um “encore”. Tocámos o “voo do moscardo” numa interpretação em que o Quim Guimarães demonstrava todo o seu virtuosismo com a guitarra poisada nos ombros. Um festival de aplausos intermináveis. Até os membros do Júri aplaudiram! Mas Concurso é concurso, e esta meia-final de 10 de Janeiro de 1966 já incluía conjuntos com nome como The Saints (Os Claves), os Jets, os Kímicos, The Boys, … que traziam boas pontuações das suas primeiras participações e aura de favoritos.

 

Terminada a eliminatória seguimos do Monumental para a Quinta do Tio V. ali para os lados de Sintra onde uma assistência de elite ligada aos bacalhoeiros e outras indústrias aguardava pela nossa actuação. Seriam altas horas quando finalmente conseguimos ir à cama. Domingo foi dia de regresso a Viseu, meios a dormir meios a sonhar com o eco dos aplausos e a possível ida à final. E demorou muito mais do que o normal a publicação da renhida classificação da semi-final com a atribuição de 47 pontos para The Saints, 34,5 para Os Jets, 33,5 para Os Tubarões. Sem dúvida uma boa classificação e a única sessão em que três bandas ultrapassaram os 30 pontos. Restava-nos aguardar pela continuação das eliminatórias e respectivas pontuações.
Só em meados do mês de Março fomos informados dos conjuntos apurados para a final: 6 do Continente em que “Os Tubarões” eram o único conjunto da província, e dois do Ultramar, um de Angola e outro de Moçambique.
Em Viseu a expectativa e o carinho para com o conjunto eram enormes. Todos queriam saber novidades: Os colegas, os amigos e conhecidos, os Professores e todas as entidades da cidade. Vivíamos uma saudável atmosfera junto de todos os conterrâneos. E todos viviam connosco a nossa faceta artística e a comitiva que nos acompanhava nas nossas actuações aos fins de semana aumentava de dia para dia. O snack-bar Alvorada era o nosso escritório oficial e o Sr. Correia, a mulher e sobrinhas, tomavam conta dos inúmeros contactos telefónicos para as festas e contratos.
No início de Abril, dias antes da partida para a final, somos informados de que o Sr.  Governador Civil de Viseu, Engº Engrácia Carrilho, gostaria de nos receber numa audiência oficial no Salão Nobre do Governo Civil. Ficámos admirados por tamanha honra. Chegada a hora lá fomos todos devidamente vestidos com os fatos do conjunto, liderados pelo Sr. António Xavier de Sá Loureiro, pai do Carlos Alberto e nosso “Empresário”. Nunca entráramos naquele edifício na Av. 28 de Maio, hoje Alberto Sampaio. Aguardámos a audiência com o Sr. Engº Engrácia Carrilho. Era uma figura ímpar em Viseu. Muito alto, sempre impecavelmente vestido de fato estilo inglês, casaco sempre abotoado, muito educado e muito simpático para todos com quem se cruzava. Uma pessoa distinta!
Para nós o gigantesco Salão que parecia vazio ficou completamente cheio quando o Engº Carrilho entrou. Iniciada a cerimónia ouvimos em palavras simples, um pouco da história de Viseu, o seu passado, as suas gentes e a importância da cidade no contexto nacional e ibérico. As vias romanas que cruzaram a cidade, a Sé, as Muralhas e todo o passado histórico do qual existem tantos vestígios, os Reis e personalidades ligadas à cidade como D. Afonso Henriques, D. Duarte, Vasco Fernandes (Grão Vasco), João de Barros, Hilário, Emídio Navarro e seguramente muitos outros que já não recordamos. Após tal verdadeira aula de história viva da cidade o Engº Engrácia Carrilho estimulou a nossa presença na finalíssima do Yé-Yé enaltecendo a proeza de termos ultrapassado com tanto mérito as eliminatórias que nos permitiam chegar à final. As palavras de incentivo, de enaltecimento das virtudes das gentes da nossa região, da importância da nossa presença enquanto Viseenses no Monumental, caíram fundo em todos nós, e ainda mais pesaram quando fomos oficialmente nomeados “Embaixadores de Viseu no Yé-Yé”, mandatados para distribuirmos a todos os grupos presentes na final documentação e lembranças da região de Viseu.
Saímos todos muito sérios e muito orgulhosos pela distinção e pelo importante papel que nos fora atribuído naquele acto no Governo Civil de Viseu.
Ainda hoje, 40 anos depois, várias vezes recordamos entre nós este episódio e o quanto nos marcou no amor a Viseu. Todos passámos a ver Viseu com outros e melhores olhos graças à inteligência de uma pessoa que, embora num lugar de grande prestígio, tomou a iniciativa de nos chamar, valorizar o nosso sucesso e transmitir com simplicidade e encanto a importância de se amar Viseu.
 Obrigado Engº Engrácia Carrilho. Nunca o esqueceremos.
Os Tubarões
www.myspace.com/tubaroes
os.tubaroes.viseu@gmail.com
publicado por os tubaroes, Viseu às 20:52
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: Saudades
música: Old Lady
Os Tubarões em livro: porViseu'60s.
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