Este blog descreve momentos da vida da banda de rock "Os Tubarões", de Viseu, Portugal entre 1963 e 1968. This blog describes rock band moments of life "Os Tubaroes", Viseu, Portugal between 1963 and 1968.
01 de Maio de 2014

A estreia oficial do conjunto ocorreu a 26 de Abril de 1964 no Salão Nobre do Clube de Viseu.
50 anos depois, correspondendo a um convite da Direcção do Clube de Viseu e do seu Presidente Dr. Francisco Mendes da Silva, decorreu uma cerimónia no mesmo Salão Nobre que incluiu uma Sessão Evocativa (I), uma exposição da vida dos Tubarões com fotos e reportagens, cartazes, programas, discos editados, instrumentos e trajes originais do conjunto (II) a que se seguiu a inauguração de uma vitrine com o espólio do conjunto relacionado com a vida deste naquele Clube (III).

A Sessão Evocativa (I) foi presidida pelo Dr. Francisco Mendes da Silva, Presidente da Direcção do Clube de Viseu, que salientou a razão de ser da cerimónia e os antecedentes que levaram à sua realização. 

 

 

 

Sobre a carreira musical do conjunto e algumas vicissitudes particulares vividas pelo grupo falou quem as viveu por dentro: José António Sacadura: 

 

 

 

"Reunimo-nos hoje para assinalar 50 anos do 1º concerto dos Tubarões, nesta sala do Clube de Viseu.

 

Pessoalmente estou aqui por uma razão muito simples: Amizade. 

Mas uma amizade que nada tem com o popular ditado que diz serem os amigos para as ocasiões, porque para mim, os amigos são para sempre. E como diria outro amigo que partiu recentemente” Um verdadeiro amigo é alguém que pega a sua mão e toca o seu coração. “(Gabriel García Márquez)

 

Estou certo que a maioria dos presentes recorda o trajecto percorrido pelos Tubarões. Muitos tiveram oportunidade de conhecer detalhes das peripécias vividas na época, graças à leitura do Livro “Viseu Anos 60”,que o Eduardo Pinto deu á estampa.

 

Por isso mesmo, não vou repetir factos ali retratados. Limitar-me-ei a evocar, muito sucintamente, alguns aspectos que ajudem a compreender o que esteve na origem, deste grupo de “afoitos infantes”.

 

No início dos anos 60, na juventude visiense predominava um grupo de mais velhos, digamos do 5ºano do liceu para cima, que por já usarem barba, nós, do grupo dos mais novos, passámos a designar” carinhosamente” por Xibos.

 

Esse grupo, aos domingos à tarde, promovia, aqui no Clube de Viseu, matines dançantes.

 

Nós, os mais novos, que já frequentávamos o Clube de Viseu, começamos a assomar á porta desta sala e alguns aventuraram-se a dar o seu pé de dança.

 

A condescendência dos mais velhos, lá permitia a nossa presença, embora sem voto na escolha das músicas postas a tocar no gira-discos.

 

Mas, para este grupo dos mais novos, as matines sabiam a pouco.

 

De alguma maneira influenciados pelas notas musicais que abalavam estruturas e traziam cheiro de novos tempos, e querendo fugir aos olhares “do Regime rigido”, a que no Clube estavam sujeitos, procuraram uma solução alternativa, que lhes desse mais liberdade.

 

E, a solução pensada apontava para criar o que viria a ser um precursor das Bandas de Garagem, neste caso,  um  orgulhoso “clube de garagem”.

 

Porém, um problema subsistia, onde conseguir uma garagem?

 

É então que o Vitor Barros, Vitó para os amigos, consegue convencer seus pais a autorizar que o sonho se tornasse realidade.

 

Assim, não propriamente na garagem, mas, na cave de sua casa em Massorim, nasceu o clube “Só +2”. Mais tarde viria a evoluir e passou a designar-se por “Tic-Tac”.

 

Ali realizávamos matines dançantes às quartas e sábados, com acesso muito restrito e sem mirones.

 

Não se pense que era um Clube qualquer, pois em réplica do Clube de Viseu, também tínhamos lanches e sala de jogo.

 

Para o nosso grupo de então entra um recém-chegado a Viseu, vindo de Moçambique, o António Fernandes, Tó Fifas para os amigos.

 

O Tó Fifas aporta ao grupo novos conhecimentos, que muito contribuíram para o seu fortalecimento.

 

Desde logo, e por graça o refiro, uma nova forma de assobiar, que passámos a usar nas nossas deambulações nocturnas e que peço ao Fifas para exemplificar.

 

Mas o mais interessante foi ter-nos revelado o seu lado artístico, tocando viola e harmónica na perfeição.

 

Daí nasce a ideia de formar um conjunto,” uma Banda de Garagem”, pois  na época banda, só a dos Bombeiros Voluntários ou a de Quadrazais.

 

E para formar esse almejado conjunto havia apenas que ultrapassar um pequeníssimo problema: Nenhum de nós sabia tocar qualquer instrumento.

 

Para que o Fifas, constituído e arvorado em Mestre, pudesse exercer o seu papel,

era preciso seleccionar quem tivesse aptidões para a coisa e arranjar uns instrumentos para iniciar as lições.

 

Tudo isto parecia fácil, até porque para cantor, o Zé Merino preenchia os requisitos, como agora se diz, e não precisava de aprender a tocar. Um dos poucos que se salvava, no meio da harmoniosa desarmonia.

 

Depois de conseguidas duas violas de empréstimo, só ficava a faltar o local para os ensaios.

 

Pois é, mais uma vez a solução passou por casa do Vitó.

 

Ali, na sala de jantar se juntavam o Vitó, o Eduardo, o Luis Dutra, o Zé Merino e o Fifas. Eu, que nem para tocar ferrinhos tinha queda, ( aliás,  meu instrumento de eleição), permanecia de espectador atento, dando apoio moral, e tentando perceber do aproveitamento dos alunos.

 

As violas lá iam contribuindo para o avanço dos instruendos, mas pior estava o baterista Eduardo, que tinha de se contentar com umas caixas de sapatos, uns testos de panelas e uma baquetas, ou melhor canetas da famosa marca BIC.  Assim, se escreveu, literalmente , o primeiro capítulo da história musical do conjunto.

 

E desta forma simples, mas com muito trabalho e dedicação e ultrapassando difíceis obstáculos, o Mestre Fifas conseguiu, com os seus dotes, aproveitar os talentos dos companheiros: Vitó, Luis, Eduardo e Zé.

 

E o melhor corolário foi o espectáculo dado nesta sala em 26 de Abril de 1964, há precisamente 50 anos. Quem diria que os penetras das matines de domingo” esses afoitos infantes”, viriam abafar o gira-discos e os Xibos dançariam ao som das suas tocadelas?

 

Depois de tão prometedor começo, surge a evolução com a entrada dos talentosos Carlos Alberto Loureiro, e mais tarde a do Quim Guimarães.

 

E a carreira lá vai continuando.

 

Mas o zénite chegou com a participação no famoso concurso ié-ié no Monumental em Lisboa, onde assisti a todas as eliminatórias, e para onde mobilizei amigas e amigos daquela época para um apoio forte. Lembrem-se que era um conjunto de província, desconhecido da juventude da capital.

 

A participação foi excelente e o resultado final ninguém o pode explicar, pois em nada correspondeu ao valor de cada um.

Por esta ocasião entra para o lugar do Quim o Valdemar, Vató para os amigos.

 

Pessoalmente e sem qualquer facciosismo posso garantir que os Tubarões mereciam o 2º ou  3º lugar e que o 1º deveria ter sido para os Sheiks, embora o resultado final não tenha explicação plausível. Mistérios do Movimento Nacional Feminino.

 

 Mas para que esta evolução se tivesse tornado realidade foi peça chave, o Exm Senhor Xavier Sá Loureiro, pai do Carlos Alberto, que deu o suporte financeiro indispensável para aquisição de novos instrumentos, supervisionava o dia a dia e toda a logística dos concertos .

 

Como corolário daquela participação, alcançaram a almejada meta: Gravar um disco.

 

Vivendo os Tubarões em Viseu e sendo necessário promover o disco pelas rádios em Lisboa, coube-me a mim e ao Fernando Pascoal de Matos, então já a viver em Lisboa,

dar as entrevistas a esses programas, de que recordo 23ªHora na RR. e PBX na Comercial.

 

Concluirei, afirmando claramente que sem o talento do Fifas, o extraordinário casal Barros, verdadeiros visionários e apoiantes incondicionais, deste grupo, os Tubarões não “teriam saído ao mar”.

 

Sem o suporte financeiro e controlo activo do Sr. Xavier Sá Loureiro, os Tubarões não teriam “nadado até outros mares”.

 

Tendo também, bem presente na memória, o Sr. Sá Loureiro, e  os amigos que tão cedo nos deixaram, Zé Merino e Luis Dutra. Mas quem é lembrado, nunca desaparece.

 

 Quero aqui prestar uma especial e singela homenagem à  Exmª  Senhora Dª Margarida Barros, que felizmente ainda se encontra entre nós e de boa saúde.

 

A Senhora Dª Margarida Barros, mãe do Vitó, foi de facto uma senhora  que  manifestou uma compreensão da juventude dos anos 60, acompanhou este movimento libertário, muito para além dos padrões praticados, pela sociedade de então.

 

 Enternecedora, na forma como acompanhava as nossas iniciativas, o carinho com que nos recebia em sua casa, será sempre recordada com muito afecto por todos os que a frequentaram.

 

E porque uma das singularidades da vida é não o “adeus”, mas o “ reencontro”, peço, para todos os que acabo de evocar, aqueles que partiram e para  os amigos de sempre, aqui presentes, Vitó, Fifas, Eduardo e Carlos Alberto  peço, dizia eu, uma calorosa salva de palmas.

 

Obrigado"

 

Apoios: José António Sacadura, Fotógrafo José Alfredo.

porep 

 

publicado por os tubaroes, Viseu às 00:24
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Os Tubarões em livro: porViseu'60s.
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