Este blog descreve momentos da vida da banda de rock "Os Tubarões", de Viseu, Portugal entre 1963 e 1968. This blog describes rock band moments of life "Os Tubaroes", Viseu, Portugal between 1963 and 1968.
03 de Março de 2012

 
A IDADE DA INOCÊNCIA
(Apresentação do livro porViseu'60s pelo Professor Almiro de Oliveira na Casa da Beira Alta, 20120204)
 

VISEU (anos 60’s) e os TUBARÕES  ( a propósito do livro de Eduardo Pinto, 2011 )

  

1. Creio ter sido (a informação é do autor) o primeiro leitor do livro que, amavelmente, o Eduardo Pinto me levou a casa, onde me encontrava, em Agosto de 2011, em período de convalescença pós operatória. E quero desde já dizer que o li de uma só vez, e que tal me levou 3 agradáveis horas de autêntico flash-back sobre a minha juventude.

A tal idade da inocência !

 

Inocência, sim ma non tropo, como nas páginas do livro do Eduardo Pinto se pode testemunhar.

Eram, então, os fantásticos anos 60 e nós os “teen agers”da altura: 15, 16, 17, 18 anos !

 

Era o tempo em que Viseu se podia meter todo dentro de um quadrilátero definido pelas coordenadas do lado Sul da Cava de Viriato, do Liceu, do Fontelo e do Bairro de Massorim.

 

Era o tempo da algazarra comercial na Rua Direita, da arrumada Rua Formosa e das atribulações na Rua do Comércio, por causa do “Mercado da Praça”.  

 

Era o tempo das tardes calmas e dos encontros furtivos no Parque da Cidade e das múltiplas aventuras no Fontelo.

 

Era o tempo de gente da gente fina do Bairro de Massorim e das novas vivendas da Avenida que ia para o quartel.

 

Era o tempo da guerra colonial que atormentava todas as famílias (eu acho que todos tinham ou um filho, ou um irmão, ou um qualquer familiar próximo, ou um Amigo lá na Angola, ou na Guiné, ou em Moçambique).

Era o tempo dos aerogramas.

 

Era o tempo dos cafés: do Alvorada (“sede dos Tubarões”); do Vitória (local barulhento e de encontro de jovens estudantes do Liceu); do Rossio (dos Senhores e dos Intelectuais); do Santa Cruz (do dominó); das Beiras (da malta da Ribeira, dos estudantes da Escola Industrial e Comercial e das classes mais modestas); do Morujeira (que reunia a malta do perímetro das Cava, da Av. da Bélgica e que rivalizava com o da Estação); Café da Estação ─ sim, havia uma estação onde chegavam e de onde partiam umas geringonças que davam pelo nome de comboios (a carvão) e de automotora (a diesel) que ligava Viseu a Espinho e Viseu a Santa Comba Dão.

E é bom lembrar que, de Viseu a Espinho se gastava, no mínimo, 4 horas de comboio/automotora.

 

Era o tempo dos “fiscais dos isqueiros” que “habitavam” os cafés, e também era o tempo dos Pides … e, às vezes, estas duas figuras coincidiam na mesma pessoa ─ pelo menos era essa a ideia no imaginário das pessoas.

 

Era o tempo das pastelarias, que tão bem o Eduardo Pinto pintou nas suas páginas, com pinceladas magníficas de caracterização dos costumes e das pessoas que por ali andavam na Horta o na Santos (o Aquário).

 

Era o tempo dos bailes e matinés no Cine Rossio e das noites de terça feira no Teatro Avenida onde a troco de vinte e cinco tostões/três escudos se viam 2 filmes de longa metragem.    

 

Era, também, o tempo do Café Luciano e dos seus caramujos (a 1 escudo cada), que ainda quentes, eram disputados pelos alunos da Escola Industrial e Comercial, quando saíam das aulas … ao meio dia !

 

Também era o tempo das tardes de quarta feira e de Sábado, passados no Académico de Viseu, a jogar ping-pong ou bilhar livre, em amena e franca camaradagem, num perde-paga de que só resultou forte amizade e solidariedade.

 

Era o tempo da inocência !

 

2. Era o tempo em que o mês de Junho nos trazia aquele perfume inebriante e inconfundível das tílias nas noites quentes do Rossio ─ para onde convergia a fina flôr da cidade e a malta mais jovem e inquieta.

 

Era o tempo em que toda a cidade ansiava pelo mês de Setembro para, nos terrenos da Feira, poder desfrutar de um mês de convívio e diversão com familiares e amigos, que aí se deslocavam de todo o País ─ e onde começaram a aparecer os primeiros emigrantes franceses e suíços.

 

Era o tempo dos “Campeonatos de bonecos” (agora são matraquilhos), que nas tardes de semana, alguns mais habilidosos e afoitos faziam com os donos dos stands de diversão, que se instalavam na Feira de s. Mateus, e que chegavam a transitar de um ano para o outro.

 

Era o tempo, …  era o tempo, … era a idade da inocência !

  

3. De repente, em turbilhão, surgem os Corsários e os Tubarões.

Primeiro incipientes, titubeantes, mas em breve a ser alvo das paixões mais desenfreadas, de muitos comentários e críticas acintosos, os Tubarões rapidamente se transformam num símbolo da juventude iconoclasta e da cidade de Viseu.

 

Veja-se, aliás, como o Eduardo Pinto conta a história do reconhecimento público e político (pela mais alta autoridade da cidade e do Distrito), numa altura em que o Regime e a sociedade não andavam metidas nestas andanças … e, até, baniam este tipo de actividades e iniciativas.

 

Claro que, a idade da inocência até chegou a permitir sonhar com a conquista do 1º prémio do Concurso em Lisboa …

 

Mas, foi uma convulsão sentida na cidade esta erupção social dos Tubarões … claro que da parte de baixo da cidade havia alguma inveja, dizendo-se que “aquilo é lá dos meninos queques do Liceu e da gente fina de Massorim”.

 

Mas, no final, todos se queriam associar ao êxito dos Tubarões.

 

E o monumento ao Rei D. Duarte lá traduz a eloquência a serenidade e a prudência requeridas às críticas … e o Monumento do Viriato mostra bem que até ele desembainhou a espada para defender os detractores dos Tubarões ─ que diabo, eles eram Viseenses !

 

O Camões (porque era da concorrência, claro) lá o desterraram para o Parque da Cidade, onde, certo dia (no testemunho de um poeta da cidade, que eu conheci pessoalmente) alguém ouviu este diálogo:

 

que estás aí a fazer Camões,

Homem de tanto valor ?

 

A que o vate terá respondido:

 

estou a apanhar bolotas

Para aqueles idiotas

Que aqui me vieram pôr.”

 

  

4.  Em Janeiro de 1965 “emigrei” para o Porto e pude testemunhar que aqui, também se ouviam os acordes dos Tubarões … que, às vezes, se confundiam com os Shadows e Les chats sauvages. Mas, naquele tempo, Viseu estava, sobretudo, virada para Coimbra e para Lisboa.

 

Todavia, os fins de semana em Viseu iam-me alimentando o sentimento de identificação com a cidade e com os seus ídolos ─ não propriamente como embaixador ou como delegado mas, sempre que podia, à roda dos amigos nos Cafés, no Instituto Comercial ou na Universidade, lá ia divulgando, envaidecendo-me com os meus amigos que faziam parte dos Tubarões e com os êxitos destes.

 

5.  É … foi a idade da inocência  …

 

Das amizades fortes e desinteressadas.

Dos vizinhos, dos cafés e das conversas com os mais velhos.

 

Dos noticiários mitigados que nos chegavam de África e da guerra colonial e das inquietações crescentes que sentíamos, à medida que se aproximava e
nos batia à porta a idade do serviço militar.

 

O tempo em que alguns amigos saíam, clandestinamente, do País para outros países europeus

 

O tempo em que milhares de beirões e transmontanos saíam a salto do País em vagas que faziam lembrar (não sei se alguém se lembra) os “ratinhos” que, vindos das profundezas de Vila Nova de Paiva, Penedono ou Trancoso, e das entranhas das Beiras, chegavam a Viseu para apanhar o comboio com as suas arcas e as suas ninhadas de filhos a caminho das searas do Alentejo !

 

Por isso, os Tubarões foram uma lufada de ar jovem e de ar fresco: abanaram os equilíbrios sociais e familiares e mostraram ao País a força de um interior que tirando partido do seu capital telúrico, queriam conquistar Lisboa e por pouco … a Inglaterra !

 

Não nasceu Afonso Henriques em Viseu ? E não conquistou Lisboa ? Não foi o Magriço Senhor da Beira Alta ? E não foi herói entre os heróis em Inglaterra ?

 

Então ?!!

 

Bem haja !

 

Bem haja ao Eduardo Pinto e aos Tubarões o contributo para reforçar a Alma e o orgulho dos Viseenses !

 
 
publicado por os tubaroes, Viseu às 10:41
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Os Tubarões em livro: porViseu'60s.
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